as memórias me transpassam no momento que vou andando sob aquelas estradas que eu passava praticamente todo santo dia por quatro anos inteiros da minha vida ouvindo as mesmas músicas que eu ouvia no talo nos meus fones de ouvido olhando a paisagem. era, de certo, um tipo de meditação pra mim, um jeito meu de lidar com aquela fase tão esquisita chamada adolescência.
hoje me sinto tão livre dirigindo e ganhando a estrada com meu fusca até meu destino final. eu gosto do vento, da paisagem e de cantar o mais alto que consigo enquanto piloto com desenvoltura. dirigir bem é um dos meus orgulhos da vida, tenho que admitir sem falsa modéstia. estimulo estar inteira no presente quando tenho que dirigir, desenvolvi ir me acalmando e deixando meus problemas em casa até eu completar meu caminho ou mesmo voltar. também já dirigi chorando inúmeras vezes. uma até tive que parar na estrada, porque o choro me embaçava tanto a vista e não acabava nunca.
agora que não dirijo distâncias tão longas, experimento chorar no banho, é um momento só meu. eu gosto de sofrer e chorar sozinha. estou melhorando nisso, deixando as emoções fluirem melhor no meu corpo, sem reter. na frente de Kevin já chorei inúmeras vezes, ele não me pergunta, nem tenta me amparar com palavras, ele me abraça quase sempre, de tanto eu pedir abraço nesse momento ele sabe que é o que me serve. a tristeza acontece na nossa vida também e reparei que deixar ir é o que me faltava muito no tempo da adolescência. é um quentinho suave o da melancolia, reconheço que dá muita vontade de permanecer ali por muito tempo. esse é o perigo.
eu quero muito voltar a ver a vida com mais ânimo, mas me sinto passando por um processo de lidar com a tristeza. é necessário lidar. eu tou passando pra outra fase da vida, definitivamente. não me sinto bonita por fora, mas consigo achar uns traços de amadurecimento bonitos em mim. eu definitivamente gosto de mim agora, já é um fato (ufa!), tenho conseguido perceber meus limites e quando eu tou passando pra uma dinâmica de relacionamentos ruim. mas é fato que preciso me arrumar, me sentir linda, atraente. eu nunca havia reparado o quanto receber olhares desconhecidos de quaisquer natureza faz falta. não ser olhada como um objeto, mas simples olhares mesmo, daqueles que se perguntam quem eu sou, se já me viu antes ou supõe que eu poderia ser uma boa amiga ou que transo bem. só esse mistério que não realiza nada, fica no ar, no momento.
eu sentia muito tesão quando eu saía pra dar rolê com Kevin pelo centro. são inúmeras as vezes que transamos no carro. parecia que aquelas noites pulsavam e davam um ar diferente nos meus pulmões. a vida foi ficando mais pesada, viver nesse planeta foi ficando. a vida adulta de verdade encaçapou algumas das levezas do nosso dia a dia. vamos sair dessa pandemia mais maduros, com certeza, sabendo valorizar e aproveitar a leveza dessas noites melhor, eu acho. sempre vi beleza em conversar com os amigos na rua, sentar em qualquer lugar, beber água mesmo e fumar em rodas, apesar de eu reservar esse feito para dias de algum equilíbrio interior (que não eram muitos, enfim), eu participava da roda só pegando e passando. mas o estar ali me animava, o mistério de ser e estar num grupo tão legal com o menino que eu gostava e queria dar.
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