Hoje acordei pequena, com um pesar e querendo me esconder do mundo. Pensei estar lidando somente com a frustração do dia de ontem, que teve o show gratuito no 1º de maio do Sindicato dos Metalúrgicos no Parque das Águas em Sorocaba e eu não consegui aproveitar como eu estava esperando, porque passei mal com tanta gente. Esse sentimento foi ruim, mas passou, cheguei à conclusão de que me respeitar é a minha meta e ontem eu consegui, no momento lá eu lidei da melhor forma que eu podia ter lidado: me respeitando e respeitando o Kevin que também não estava bem quando chegamos. Chegada a essa conclusão, o pesar ainda ficou. Chorei ao ver uma lembrança do pai de uma amiga que se foi há uns anos e ela escreveu sobre como gostava de ouvir as histórias dele, chorei lembrando que eu também queria ouvir novamente todas as histórias da minha vó.
Há uns dias que olho a data, vejo lembranças de um ano atrás e me lembro que dia 7 de maio está chegando. Será que já faz um ano que não ouço sua voz, vó? Que saudade que me aperta. Eu queria te contar, tanta coisa mudou desde que você partiu! Eu tentei fotografar pra ir me lembrando, mas nosso quintal tem um muro enorme no meio, meu pai não mora mais na chácara, eu tenho uma nova casa (que queria muito que a senhora visse), toco em um trio de samba, não tenho mais o riso tão fácil, me sinto mais forte, estou conseguindo ganhar dinheiro novamente e trabalhar com o que gosto.
As coisas voltando assim também me trazem um sentimento estranho, que eu já devo ter escrito sobre ele, mas me repito, que é voltar com tudo diferente. Voltar sem a senhora aqui pra eu contar sobre os meus dias, sem ouvir a senhora contar dos seus e sairmos juntas bater perna. Ainda bem que fomos no mercado juntas antes da pandemia acabar mesmo eu com medo, né? Você insistiu que queria ir, não te importava a Covid, será que a senhora já sentia que tava partindo? Aquele dia me deixou boas lembranças.
Tento dia a dia transformar essa tristeza do luto em impulso pra viver e construir a vida que eu quero para mim no dia de hoje. Tem dias que o que eu consigo é apenas chorar litros e ficar enfiada em casa sem fazer muito, e tenho conseguido sobreviver sem culpa e com respeito por mim nesses dias também. Não rio mais tão fácil, mas consigo lidar com dias difíceis com tranquilidade agora. Vi a senhora passar por dias assim também e sempre querendo trabalhar para se sentir útil, espero que aqui mesmo você tenha conseguido ter essa tranquilidade sem culpa de ficar "a toa" quando não está muito legal. Minha vó era minha melhor amiga, minha puxa-saca, como diz minha mãe, e eu dela.
Tudo passa e passa rápido, por mais que um momento ruim pareça uma eternidade. Eu sou forte e agora também estou aprendendo a ser vulnerável, assim me sinto mais forte ainda, sabia? Fui crescida e regada no amor da senhora, do vô, dos meus pais e da nossa família toda e por isso tenho raízes fortes que me ajudam/ajudaram a sobreviver mesmo no inverno mais rigoroso que a minha alma enfrentou. Hoje consigo até falar e escrever sobre isso e sabe o que quer dizer, né? Depois do inverno vem a primavera, nossa estação preferida. Todas as florações que eu presenciar espero que de onde você estiver, possa ver e se sentir realizada comigo como a gente fazia juntas pelo jardim.
Te amo e a senhora é parte de mim para todo o sempre. Tudo passa, mas o amor prevalece.
{02 de maio de 2022}
